Flávio Carneiro: Meio século na Comunicação
Dos concursos de misses nos anos 60 à construção da imagem de uma universidade, lá estava ele
Poucos profissionais são capazes de mostrar uma bagagem profissional de meio século como o jornalista e publicitário Flávio Carneiro. Com agens por veículos como Revista do Globo, Diário de Notícias, Folha da Tarde e Jornal do Brasil, e agências como a Denisson e a Módulo Propaganda, ele pode ser considerado uma legítima testemunha ocular dos fatos ocorridos na Comunicação nas últimas cinco décadas. Tanto viu, fez e viveu que, entre uma pergunta e outra, lamenta-se por não ter trazido anotações com datas precisas de suas atuações. Mas nem foi necessário: com a memória privilegiada de quem já presenciou grandes feitos históricos e jornalísticos, Flávio sorri ao relatar acontecimentos que há muito tempo não rememorava.
A Comunicação Social sempre esteve presente na vida do porto-alegrense Flávio Roberto Cunha Carneiro, nascido a 14 de novembro de 1935. "O marco dos meus 50 anos de atividade profissional é a Comunicação nos seus mais variados segmentos, pois nunca me afastei dela. Todos os desafios me animaram muito para estar trabalhando até hoje", relata. Ele formou-se em Jornalismo pela Ufrgs em 1962. "Prestei vestibular para Direito e não ei, mas tenho certeza que não era a minha vocação. Acabei ficando com a minha segunda opção de curso e deu certo", brinca.
Duplo aprendizado
Flávio iniciou a carreira profissional em 1957, enquanto ainda estava na Universidade. "Fui trabalhar na Revista do Globo, um veículo muito importante para o Brasil e que revelou Erico Verissimo, Justino Martins e nomes que se projetaram posteriormente. Era uma verdadeira escola". A vaga obtida pelo jornalista foi no arquivo fotográfico e sua função era organizá-lo. Depois de quatro meses foi convidado para fazer uma reportagem - e daí em diante não parou mais. Em 1959, outra oportunidade batia à porta: Flávio entrou para a equipe dos então poderosos Diários e Emissoras Associados, onde atuou nos jornais Diário de Notícias e A Hora. Entre as experiências adquiridas ao longo dos quatro anos, destaca o aprendizado na área das promoções. "A empresa viu neste setor uma forma de se diferenciar do Correio do Povo. Também saí ganhando por ter trabalhado com profissionais qualificados, como o Marcos Fishman e Glênio Peres, o homem do Largo Glênio Peres, que foi vereador e vice-prefeito de Porto Alegre. Ele era um grande jornalista e dirigia o departamento. Nesta área tínhamos uma liderança em relação aos outros. Fazíamos promoções nas áreas esportiva, social e diversos concursos, sempre com uma repercussão muito boa".
Um dos orgulhos que o comunicador carrega no peito e que o Jornalismo lhe proporcionou foi ter participado de uma cobertura internacional do Miss Universo, que aconteceu em Miami, nos Estados Unidos. O concurso, muito prestigiado nos anos 50 e 60, era desenvolvido pelo departamento de promoção dos Diários Associados. "Antigamente, era que nem novela das oito hoje, e miss parava trânsito." Foi então que em 1963 o júri elegeu a gaúcha Ieda Maria Vargas como a mulher mais bela de todo o Brasil, e Flávio foi nomeado para fazer a cobertura jornalística do evento. Ele produzia material para cerca de 20 jornais em todo o território nacional. "Como a gaúcha tinha ganhado o concurso, me convidaram para ir a Miami, depois a Nova Iorque. Naquele tempo, as matérias eram enviadas por avião. Eu redigia na máquina de escrever e, como não havia levado fotógrafo, comprava as imagens das equipes das revistas Manchete e O Cruzeiro".
Ao retornar da cobertura, resolveu dar uma "guinada" na vida e mudou-se para São Paulo, onde ficou por quase dois anos trabalhando numa sucursal do Jornal do Brasil. "Naquela época existia o copydesk, que redigia os textos, pois os repórteres, muitas vezes, tinham que mandar as matérias até mesmo por telefone. Isso para mim foi uma experiência muito boa, pois o JB era tido como o jornal que possuía o melhor texto do Jornalismo brasileiro. E eu, modéstia à parte, consegui me adaptar muito bem àquele estilo, pois o texto feito por mim era quase que 100% mantido", orgulha-se. O jornalista diz ter vivido intensamente a época em que esteve na sucursal paulista. "Foi durante o golpe militar de 64, e havia uma movimentação muito grande dos repórteres que iam cobrir o II Exército e as centrais sindicais. Era um negócio fantástico! Eu trabalhava até às 23h e recebia uma quantidade muito grande dessas matérias", conta. Também trabalhou paralelamente na divulgação do departamento de Comunicação Social do Instituto de Idomas Yázigi. Depois do golpe, o jornalista conta que o clima ficou pesado para permanecer em São Paulo e decidiu voltar ao Rio Grande do Sul.
Regresso no grito
Ele relembra ter retornado aos pampas gaúchos "meio que no grito". "Como não era casado e morava com a minha mãe, dava para arriscar um pouquinho mais. Então, voltei a trabalhar na Revista do Globo, mas desta vez como diretor. Confesso que foi um período difícil, pois a publicação já estava em declínio devido à forte concorrência da Manchete e O Cruzeiro. Ela tentava se segurar, mas os proprietários não faziam investimentos e lá eu fiquei até a sua extinção", diz. Depois do fechamento da revista, ocorrido em 1967, teve a primeira experiência como publicitário, e o convite veio de Flávio Correa, conhecido como Faveco, que na época dirigia a Denisson Propaganda. Na agência, ficou por pouco tempo, pois já estava em negociação com a Caldas Júnior, que editava os jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Tarde Esportiva (esta somente às segundas).
Foram seis meses de conversa até ele entrar na empresa em que trabalharia por 18 anos. "Fiz de tudo na Caldas Júnior: fui repórter, editor de variedades e lá juntei minha função de jornalista com a experiência na área de promoções. Consegui dar um dinamismo muito grande ao departamento. Começamos a fazer uma série de promoções muito boas. Na área dos esportes, lançamos o Campeonato de Futebol Praiano." Na Folha da Tarde, também assinava uma coluna diária de variedades chamada Ponteiro que, segundo ele, foi a mola propulsora do movimento ambientalista do Rio Grande do Sul. No espaço, além de apoiar o movimento, tinha a contribuição e informações privilegiadas de um dos fundadores da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção à Natureza) Augusto César Cunha Carneiro, seu irmão. "Eu pessoalmente não me dediquei ao movimento ambientalista, mas ajudei muito na divulgação."
Outra lembrança que guarda com carinho foi ter sido um dos incentivadores do Festival de Cinema de Gramado. "A prefeitura da cidade queria fazer um grande evento e eles se deram conta de que, sem o apoio de um veículo de comunicação, seria difícil. Então, começaram a procurar o pessoal da Caldas Júnior, e eu fiquei com a responsabilidade. Fui apresentar a idéia do Festival de Cinema para a agência MPM, que tinha a conta da Ipiranga e fazia promoções com a empresa jornalística na praia, e eles gostaram da idéia." A empolgação dos envolvidos era tanta que, inclusive, foram para o Rio de Janeiro convidar diretores, jornalistas, atores e profissionais do Cinema. Nos últimos anos na Caldas Júnior (no início dos anos 80), no Departamento de Promoções, onde Flávio trabalhou, ele recebeu o apelido de "diretor de marketing". "Com a chegada da Zero Hora e os seus classificados, a Caldas Júnior enfraqueceu e, neste momento, minha vida jornalística deu um stop", conta.
Novos horizontes
Foram quase duas décadas na mesma empresa, mas estava na hora de mudar o rumo ou, como diz Flávio, de iniciar um novo capítulo na vida profissional. O então governador do Estado, Jair Soares (1983 a 1987), já em seu penúltimo ano de mandato, o convidou para assumir o cargo de diretor de Operações da Crtur (Companhia Rio-grandense de Turismo). Sempre otimista, apesar de não estar em atuação na área, afirma ter adquirido muito aprendizado. "Eu tinha que vender o chamado produto turístico do Rio Grande do Sul e aprendi muito com isso. Comparecia a diversos eventos de turismo, em São Paulo, Belo Horizonte, Buenos Aires e Uruguai", relata. Ao término do governo Jair Soares, o jornalista encerrava mais uma etapa e aria a escrever um novo capítulo.
Surgia ali outra possibilidade de atuar no ramo publicitário: ele agora era diretor de Novos Negócios da agência Módulo. "Nesse período, apareceu a Ulbra na minha vida, que era pequena e estava começando. Fui convidado a fazer um trabalho para a instituição." Os responsáveis aprovaram o resultado e, conforme a Ulbra crescia, Flávio permanecia como o profissional que atendia à conta. "A agência fechou e a Ulbra ou a ser atendida pela Quality e eu fui junto. Depois veio a Arauto e, logo, a Competence. Nesse momento, eu fiquei no meio do caminho e mudei de lado: virei cliente e comecei a representar a instituição junto à Competence, que permaneceu com a conta por cerca de dois anos". Em 2000, a Universidade resolveu criar uma house, uma agência própria, e o jornalista estava cada vez mais ligado à instituição. "No início não havia muita estrutura, mas funciono até hoje como o homem de mídia, pois comando todas as negociações com os veículos de comunicação. Sou um soldado que ajudou a construir o nome da Ulbra."
Eterno otimista
Foi através de uma colega de redação doa anos 70 que conheceu a mulher Heloísa, com quem é casado há 32 anos e tem dois filhos: Flávio Alan, 35, formado em Educação Física, e Mariela, que cursou Jornalismo.
Com os filhos encaminhados, o jornalista costuma freqüentar salas de cinema para se distrair. Outra atividade que lhe agrada é acompanhar corridas de cavalo pela televisão. "Já gostei muito de corridas de cavalo e hoje é algo que está em decadência no Rio Grande do Sul, mas ainda acompanho quando posso pela TV". Já para manter o corpo sadio, freqüenta uma academia de ginástica três vezes por semana. "Além de gostar, é algo que me faz bem."
Após muitas idas e vindas, Flávio acredita que conseguiu superar todos os recomeços que a carreira lhe proporcionou devido ao otimismo que cultiva. "Além de ser fundamental para a vida, é minha marca! Nunca desanimei com as mudanças e com as etapas. Cumpri bem todas as minhas obrigações."
